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sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Transfiguração


O galo só quer cantar
Quando o dia nascer.
O cão latir
Quando o galo cantar.

Ambos almejam exercer
O seu papel no ecossistema.
Do galo nenhuma pena
Foi feita para lutar.

Animais não são armas
Nem soldados de guerra,
São somente animais
Que por piores feras
São feitos como tais.

E lutam sem saber o porquê
Até cair um perecido
Numa poça de sangue imundo.

Em irracionais atos de loucura,
Na rinha, o homem transfigura
O seu mundo.

Lalo Oliveira.



quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Até que a Morte nos Repare



Se nasce puro,
Se corrompe,
Se arrepende,
E se corrompe
Outras vezes.

Se arrepende muitas vezes
E se corrompe.

Assim somos na vida,
Carro que dá partida
E bate.

Erramos, falhamos
(pecamos?)
Na viagem
Muito e tanto.

Até que haja a batida
E a morte nos repare.

Porque quando se vai a vida ,
Todo mundo vira santo.


Lalo Oliveira.





sábado, 9 de fevereiro de 2008

Cor Nova


Não julgue o meu amor
Com base no que já existe.
Não busque na “aliança divina”
A sua cor.

Não está na luz branca,
É cor nova,
Sem coisa para comparação.

Não é clara, tampouco escura.
Não é primária, solitária,
Nem mistura.


Pode ser que nem Deus a conheça,
É cor nova.
Com base no que já existe,
Não julgue o meu amor,
Minha cova.


Lalo Oliveira.


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Chave Quebrada


Quando morre um porteiro,
Quem abre o portão?
Abre o próprio passador,
Com suas

próprias mãos,
Mas não há “bom dia”
Ou tratamento de “senhor”,
E a pizza esfria

Nas mãos do

entregador.

E as cartas quem entrega,
E passa a cobrança ao devedor?
Quem chama no interfone, educado,
Avisando da visita que chegou?

Não
há cobrança que se
pague só,
E nenhuma carta voa,
Nem interfone chama só,
Nem se avisa por telepatia
Quando chega uma pessoa.

Quando morre um

porteiro, quem chora?
O sindico? O motoboy? Um morador?
Quem pranteia à beira do caixão
E solta em soluços sua dor
É a mulher,

os filhos, a nora,
Os irmãos, os primos, os pais,
E todos os parentes mais,
E colegas que o morto deixou.

Mas quando morre
um porteiro
Já não se abre o portão.
Quando morre um porteiro
É como uma chave que se quebra
Dentro da fechadura, na mão.

E a gente se comove,
Que não é só um porteiro
É um cidadão.


Lalo Oliveira.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Poema de Carnaval

Por trás do sorriso que há na avenida existe
Lágrimas de um trabalhador
Que sofre para sustentar os filhos e insite
Em ir à avenida ocultar sua dor.


Ria enquanto dura esta noite, homem!
Serás depois da meia-noite (denovo) um lobisomem
Melancólico e condenado à vida real,
Ria, portanto, enquanto dura o carnaval.


Fascina-me o brilho das tuas vestimentas,
Também o tecido, o modelo, a cor...
Vestindo-a esqueces o que te atormenta,
Mas não esqueça a tua camisa de vereador.


Existe por trás do sorriso talvez
Um vagabundo, um marginal ou um burguês,
Que foge da realidade indo à avenida,
Querendo esquecer os sofrimentos da vida.


Aproveite, homem, que o caminho é curto.
Seja você pai de família, burguês ou marginal,
Em breve acabará teu surto.
Ria, que acabará o carnaval.



Lalo Oliveira.