Quando morre um porteiro,
Quem abre o portão?
Abre o próprio passador,
Com suas
próprias mãos,
Mas não há “bom dia”
Ou tratamento de “senhor”,
E a pizza esfria
Nas mãos do
entregador.
E as cartas quem entrega,
E passa a cobrança ao devedor?
Quem chama no interfone, educado,
Avisando da visita que chegou?
Não
há cobrança que se
pague só,
E nenhuma carta voa,
Nem interfone chama só,
Nem se avisa por telepatia
Quando chega uma pessoa.
Quando morre um
porteiro, quem chora?
O sindico? O motoboy? Um morador?
Quem pranteia à beira do caixão
E solta em soluços sua dor
É a mulher,
os filhos, a nora,
Os irmãos, os primos, os pais,
E todos os parentes mais,
E colegas que o morto deixou.
Mas quando morre
um porteiro
Já não se abre o portão.
Quando morre um porteiro
É como uma chave que se quebra
Dentro da fechadura, na mão.
E a gente se comove,
Que não é só um porteiro
É um cidadão.
Lalo Oliveira.