Páginas

sábado, 10 de outubro de 2009

Vaso Pobre

O quarto apertado estava diabolicamente quente. Suava suas últimas gotas de vida, encharcando as poucas roupas que vestia e o travesseiro.
Os vizinhos sentiram um cheiro agreste que há muito vinha incomodando. Pensavam ser de algum animal morto em cima das casas, nos telhados. Um rato, um gato, uma lagartixa.
Não o viam já fazia um tempo estranho, bateram-lhe a porta. Nada. O cheiro aumentara, toda a rua era pura cadaverina. Puseram a porta abaixo e o encontraram inchado e roxo num pedaço de chão próximo à cama.
Ouviu-se a sirene da morte. Puseram-lhe numa gaveta do automóvel do instituto médico legal. Realizaram a autópsia na busca do verme que lhe roera o organismo e o levara ao padecimento. Não foi detectado nada: infarto, AVC, câncer, Alzheimer... nada!
O atestado de óbito deixava muito claro: Morte por envelhecimento.
Envelhecimento? Tinha somente seus sessenta e poucos, e vivera na contemporaneidade farmacêutica em vez da idade média em que se morria de gripe aos vinte anos.
Na ausência de parentes que dessem destino ao corpo, foi levado – após atuar de picolé de gente num freezer macabro – a uma faculdade qualquer onde seria dissecado por estudantes fascinados. Ficou lá. A priori era um corpo inteiro, porém depois não havia mais lugar para um risco sequer de bisturi, até que por fim virou um crânio, um úmero, uma escápula qualquer no ossuário.

Morte por envelhecimento... Quem duvidaria?

Levou consigo o vírus triste que o fez padecer. Afinal, a tristeza é um vaso pobre que só enfeita a sala de quem o possui.

9 comentários:

lopes disse...

Curti muito a sua historia!

Primeiro, porque você tem o dom de constituir uma boa narração com elementos descritivos até o final.

E depois, achei importante o desfecho e a reflexão social que você possibilitou aos leitores com a sua historia.

Sorte no Blog!
Muito bom!

http://identidade-cultural.blogspot.com/

Francorebel disse...

Texto superestiloso, pode-se dizer que seja incompreensível para muitos. Eu gostei!

Everaldo Ygor disse...

Poético e tétrico como deve Ser, ao quebrar os vazos, os cacos se tornam pequenas tristezas...
Abraços

Marcos Satoru Kawanami disse...

e o pior é que dizem por aí que vaso ruim não quebra, mas que porra!

conforme diria a Sandra de Sá: "joga fora no lixo!"


paz e bem
marcos

Only feelings disse...

Ai que lindo... me emocionou baby : ~

Lalo Oliveira disse...

Sandra de Sá é tenso viu, cara. HUAsuhHAUsasa

Fábio Flora disse...

"atuar de picolé de gente num freezer macabro". Gostei da imagem! Abraços e sucesso com o blog!

Thiago César Lima disse...

belo texto! em especial a maneira como terminou...:a tristeza é um vaso pobre que só enfeita a sala de quem o possui.

Poetico e filsofico!!
parabens!!

Paty disse...

muito bem escrito, prende a atenção de quem lê, parabéns!
só uma dúvida: o personagem que faleceu por acaso teria se suicidado?