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domingo, 31 de maio de 2009

Fabiana

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Não era tão alta de constranger-se em transporte público, nem tão baixa de usar saltos plataformas imensuráveis. Nem tão magra de mostrar os ossos, nem tão gorda de encomendar roupas. Estava inserida no que se chama normal, e isso é socialmente bem estreito. Na realidade, Fabiana tinha um bom corpo. Além disso, olhos negros escancarados nos quais mergulha-se muito facilmente, uma boca bem traçada sempre de tons claros. E como se não bastasse, ainda vestia-se bem com seus decotes generosos.

Meus amigos sempre falaram: ‘Mulher é mulher, basta mijar de cócoras’, e sempre puseram uma hierarquia na qual o corpo estava no topo. Porém nunca fui adepto dessa filosofia de mesa de bar, até gostaria, as coisas seriam bem mais fáceis e eu marcaria traços em meu caderno de relacionamentos como quem marca pontos de bilhar num quadro negro compacto, mas sempre fui amaldiçoado por uma exigência vaidosa e estúpida, da qual embora tenha consciência, não consigo desprender-me. Ignorá-la e ceder a mulheres que não me são de agrado seria como envolver-me com minha avó: o quadrado de um Édipo. Sendo assim, senti uma inércia em sentido contrário quando Fabiana tentou seduzir-me naquele balcão de bar em fim de noite.

Dentro de um vestido puramente vermelho e devidamente decotado, ela aproximou-se do balcão enquanto eu infantilmente brincava com os bancos circulares e rotatórios, girando-os oscilante em cento e oitenta graus, de modo que não percebi a besta emergindo vestida para matar. Veio seu bafo quente que vodka:

- Você vem sempre aqui? – disse em tom de brincadeira, satirizando o clichê.

- Só quando enjôo da TV. – eu disse.

- Me paga um drink? – perguntou.

- Vodka? – eu disse.

- Sure! – respondeu-me, como um bêbedo bilíngue.

Após Carina – a bargirl em quem eu estava realmente interessado aquela noite e por conta disso estava sozinho no balcão – trazer a vodka, Fabiana sentou-se prontamente no divertidíssimo banco ao meu lado que, diabos!, estava vazio.

- Adoro vodka, principalmente quando está frio, ela me faz esquentar. – disse-me estranhamente.

- O café me faz isso também. – eu disse.

- Mas a vodka e o café esquentam partes diferentes. – retrucou com um olhar diabólico.

- Você quer outro drink, Fabiana? – eu disse.

- Não, não. Você não quer fazer outra coisa? – sugeriu-me.

- É que estou esperando uma pessoa. – eu disse.

- Deus! Mil perdões! Está bem, te vejo amanhã... na repartição. – disse a mulher desconsertada.

- É claro. – eu disse.

Na verdade eu estava mais sozinho que condor moribundo, e ninguém chegaria, até mesmo Carina – a bargirl – dirigia-me sempre as mesmas palavras: ‘O de sempre, seu Cláudio?’

Fabiana não era uma mulher feia, não era de se jogar fora, não mesmo. Mas como um pequeno defeito pode levar ao chão uma grande estrutura, eu a via desmoronada por causa de seu bigode discreto, porém perceptível, e de sua dúzia de pelos no busto. É como um fio de cabelo no alimento, alguns o tiram e voltam a comer, outros perdem o apetite. Diziam que se ela demorasse mais um pouco para nascer, nasceria homem, e em vez de uma recepcionista eficiente, teríamos mais um entregador de jornais.

Foi por essa bobagem que dispensei Fabiana aquela noite e voltei para casa sem qualquer companhia senão a do taxista. Soube mais tarde que ela estava de namoro com um dos redatores, e quando a vi depois, rasguei-me: depilara-se. Então complementei o raciocínio: Os pequenos defeitos são depiláveis.

E fui outras vezes brincar no balcão do bar, na esperança de que Carina dissesse outras palavras indizíveis e sem ter a quem pagar uma vodka.

Talvez no desespero eu aprenda: Basta mijar de cócoras.

11 comentários:

M. Augusto disse...

O segredo é não esperar muito dos outros, a expectativa pelo que o outro irá nos oferecer sempre é perigosa... No mais: basta mijar de cócoras.

Borboletas ao sol disse...

Mas não se desespere não...que não basta mijar de cócoras.

Flávia disse...

Eu me divirto com esses pensamentos um tanto quanto machistas, se eu levar todos os pensamentos desse tipo que conheço em consideração, vou ter uma forte impressão que o mundo masculino é homogêneo demais.

Mas eu não levo muita coisa em consideração... Sei que até pra os que pensam que 'basta mijar de cócoras' a coisa não é bem assim.

Achei o texto divertido, dei pequenas risadinhas no final.

p.s.: gostei do raciocínio dos pequenos defeitos, eu sempre levo esse pequenos em consideração, nunca tive esse raciocínio. haha

;*

Only feelings disse...

HAuhUAHuHAUahuaa, Tenho outras frases pior que esta de mijar de cócoras: Caiu na água e fez tchibum eu pego!
Não dá pra seguir a risca que pra um defeito basta depilar.... tem alguns que só uma cirurgia e outros nem isso.
=*

Celina Modesto disse...

Hahahahaha Gostei do texto!
Veja bem... acho melhor ficar só do que sair se envolvendo com qualquer pessoa. Acho digno :)

Cáh Morandi disse...

sou tua fã. tu é um cara que vai longe...

Thaysa Cordeiro disse...

Há homens que mijam de cócoras...

hahahahaihaushiauh

Beijos :*
Adoro você!

Nina Ferreira disse...

Sapos e cadelas mijam de cócoras.

Lalo Oliveira disse...

Pois é, Nina. É este mesmo o sentido. rsrsrs

well... disse...

Mulher é mulher! kkkk
"Os pequenos defeitos são depiláveis." <-Perfect hahahaha
enfim. =|

Everaldo Ygor disse...

Olá...
Ao ler lembrei do Charles Bukowski caminhando nos bares da vida toda...
E sem dúvida o fio de cabelo é esse ai, que liga e amarra aqueles que mijam de pé e as de cócoras...

Abraços
Everaldo Ygor