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sexta-feira, 27 de março de 2009

Excrementos

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Não há tempo,
Não há hora,
Nem minuto,
Tampouco segundo
Ou milésimo
De milésimo
De segundo.

Há somente um ócio,
Uma ausência de tempo
Ou, no máximo,
Um tempo muito contraído.

Sento para escrever,
Minha caneta cai na privada,
Meu poema de amor
Vira excremento...

Até ele.


(Lalo Oliveira)

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domingo, 15 de março de 2009

Depois da Ebriedade

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Depois da ebriedade,
Do desequilíbrio corporal,
Da visão turva
E de transgressores pensamentos,
Depois do peristaltismo às avessas
Que traz à tona o alimento semi-digerido,
Depois até mesmo da incerteza dos feitos e dos não-feitos
Genesis dos pesares que os acompanham, por vezes,
Depois, por fim, da transcendência nada mítica,
Não apenas meu corpo reage,
Vista também a reação de minha psique
Da pena emocional que sinto
Da pena de quem me tem pena,
De quem me condena
E não me paga um salário,
De quem faz da razão,
Irracionalmente pseudo-casto,
Um deus autoritário.

Depois da ebriedade,
Uma sobriedade incontente

E uma certa saudade.


(Lalo Oliveira)

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domingo, 8 de março de 2009

A Delicadez de uma Mulher

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Amo a delicadeza de uma mulher
Vestindo uma meia-calça
E mais ainda tirando-a.

Amo a delicadeza de uma mulher
Tirando os brincos, colares, tiaras, pulseiras
E vestindo uma camisola para dormir.

Amo a delicadeza de uma mulher dormindo,
Do seu jeito de experimentar a comida ainda na panela,
De seus ais, de seus uis,
De suas lágrimas brotando quietas,
De seus sorrisos de olhos fechados.

Amo até mesmo a delicadeza do respirar de uma mulher,
Do andar interagindo os cabelos e quadris,
E mais que tudo a delicadeza inconsciente de existir.

Amo a delicadeza de uma mulher
Dizendo meu nome, dizendo um palavrão,
Dizendo uma coisa qualquer sem sentido num momento inadequado.

E a delicadeza de uma mulher atravessando a faixa de pedestres
Ao sinal vermelho para os automóveis
E a delicadeza com que a corre, ao vermelho para si.

Amo a delicadeza de uma mulher pedindo parada ao ônibus,
Passando a roleta, olhando o ônibus curiosa,
Os passageiros, descendo do ônibus.

Uma mulher cheirando uma fruta, apalpando-a,
Na prateleira de um supermercado,
Sentindo a quentura do pão de manhã cedo,
Comendo a fruta e o pão, comendo fruta-pão,
Ou qualquer outra coisa
É tanta delicadeza que eu amo.

Amo a delicadeza de uma mulher
Escrevendo uma poesia, recitando uma poesia,
Sendo uma poesia.

Amo ainda a delicadeza de uma mulher trabalhando
Nos serviços mais pesados até os de dondocas,
Lutando por sua liberdade, independência...
Amo também a delicadeza das dondocas.


Não há beleza, inteligência ou conta bancária
Maior que a delicadeza de uma mulher.
E a delicadeza de uma mulher é sua alma,
Quando vai-se o corpo, fica a delicadeza.

Ah, eu amo, eu amo a delicadeza de uma mulher,
Mas não gosto, repugno, enojo, repulso,
Uma mulher qualquer
Sem delicadeza.

Uma homenagem singela a vocês, mulheres, por serem a porta de entrada para o mundo, por serem responsáveis por essa flora a qual chamamos de humanidade, pela importância bradante de vossa existência, por todas as questões históricas e fisiológicas e até mesmo por serem muitas vezes culpadas do grande sofrimento emocional de nós homens, pelo poder clarividente que têm sobre nós, e por toda a inspiração proporcionada.

(Lalo Oliveira)

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