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sexta-feira, 17 de abril de 2009

Um Menino de Cabelos de Fogo

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Chegou tímida e encolhida, pois a chuva esfriava os ambientes abertos e queimava os fechados e empestados de gente onde corpos trocavam calor. Sob seu guarda-chuva cinzento, caminhava sobre as poças de água com saltos cor de abacate, um milagre à vista. Era uma mulher de cabelos negros e encaracolados que se estendiam pelas costas e encobriam 1/3 das nádegas, como medi milimetricamente. Tinha olhos abstratos de gato.

Quando chegou dirigiu-se à lanchonete que tinha mesas e bancos rústicos de madeira enfeitando-lhe a frente e que também serviam para que as pessoas tomassem café e falassem de coisas de bom senso, pois o lugar inspirava assuntos profundos e bania os de senso comum. Embora tenha pedido um café amargo, não se sentou, mas ficou em pé. Enquanto ao amargo, eu sei porque conheço bem.

Vi-a de longe, do lado oposto no qual ela está agora em pé com o guarda-chuva em uma mão e o copo reciclável de café na outra, a este olhava fixamente, penetrando cada molécula quente e agitada com sua visão profunda, como se quisesse enxergar algo, como fazem místicos que dizem ver o futuro em xícaras com pó de café, mas naquele caso nem era pó, nem era xícara, e ela olhava como se fosse.

Durante todo o tempo que a olhei, e foi um bom tempo, não fez outro movimento senão o de levar o café aos lábios e, depois de bebê-lo, abrir e fechar a boca duas vezes, e voltava a olhá-lo muito misticamente.

- Aquela mulher é imóvel e me chama a atenção - disse eu a um colega ao lado.

- Ela parece muito velha para você, mas eu pegava - respondeu-me.

- Não esse tipo de atenção, mas alguma coisa mais voltada para a curiosidade.

- Por quê?

- Porque está imóvel e bebe café.

E ainda continuei olhando-a enquanto o sujeito ao lado balbuciava algo qualquer que nenhum dos meus sentidos percebeu, pois estavam todos voltados para o lado oposto do lugar onde eu estava.

- Vou até ela - balbuciei.

- Vai lá - respondeu-me o sujeito como se eu tivesse falado com ele, quando na realidade estava falando comigo mesmo em voz alta, pensando, feito uma criança ainda desenvolvendo as capacidades linguísticas, que não somente pensa a linguagem, mas que a expressa para si mesma.

Apanhei o livro de capa dura e azul petróleo do chão e me levantei, ficando primeiro em pé e ajeitando a camisa e depois tomando o caminho mais longo, pois era coberto e eu não tinha guarda-chuva. Enquanto ia, pensei: ‘A menor distância entre dois pontos é uma reta’, e depois: ‘mas as retas não fazem emagrecer’. Ainda caminhando senti o cheiro típico daquele lugar, um cheiro gasoso e bom de droga ilegal que jovens fumavam despreocupadamente inspirados pelo tempo chuvoso.

Exatamente quando fui aproximando-me foi que vi que seus cabelos encobriam 1/3 das nádegas e que não somente seus saltos eram cor de abacate, mas também suas unhas dos pés e das mãos. Só instantes depois é que eu veria que seus olhos eram abstratos como os de alguns gatos.

Aproximei muito timidamente e disse:

- É um dia para muitos cafés.

E ela, pela primeira vez tirando os olhos do liquido negro e abrasante:

- Você viu um menino de cabelos de fogo?

E mesmo sem compreender bem, respondi:

- Mas não é um dia para meninos de cabelos de fogo - pois chovia.

E ela insistente:

- Você viu um menino de cabelos de fogo?

Dessa última vez falou mais vagarosa, como que para enfatizar.

- Não, não vi, e mesmo que tivesse visto, não o teria, pois a chuva teria apagado-lhe.

Foi então que ela chorou e as lágrimas pingaram pelo queixo e caíram dentro do copo, no café.

Um bando de jovens díscolos vinha passando, era um pequeno grupo ridículo deles, em bando, com bandeiras vermelhas e camisas vermelhas que tinham como estampa o rosto de um homem barbado. Gritavam desengonçadamente uma canção dos tempos de ditadura, caminhavam, cantavam e seguiam a canção. Tinham barbas e cabelos longos e bagunçados, com tranças e penduricalhos coloridos, grude, cola de sapateiro, banha de porco, sabe-se lá o quê. Era deles que vinha o cheiro gasoso e bom. No tempo que o dia tinha, pareciam-me andorinhas querendo fazer verão e sem conseguir, obviamente, uma vez que não somente uma andorinha não faz verão, mas também não fazem verão duas, três, quatro ou cinco andorinhas. E embora eu more num país tropical e que tem carnaval em fevereiro, não me convém o verão.

A mulher não os olhou uma só vez, tinha os olhos aquecidos pelo vapor do café que já lhe secara as lágrimas àquela altura, ainda imóvel, eu ao lado, parecia pensar num menino de cabelos de fogo.

- É filho seu? - perguntei invasivamente.

Respondeu apenas:

- É um menino de cabelos de fogo.

Então, como cúmplice, pus-me também a varrer o ambiente com a vassoura do meu olhar, como se em meio a toda sujeira, na qual também há coisas de valor, muito embora raras, eu buscasse aquele intraduzível menino que, dizia a mulher, tinha cabelos de fogo.

Não vi nada parecido, ninguém que pudesse sê-lo. Vi muitas outras coisas, porém:

Um homem florido vendendo palitos que fazem fumaça de cheiro e roupas floridas tais quais as que usa. Além disso, pares de chinelos dos quais cada chinelo tem uma cor diferente, um rosa com um azul, um amarelo com um preto, um verde com um rosa... É um homem de estatura baixa e tem cara de carranca, um vendedor de incensos e roupas floridas. Não, não é. Ou pode ser, mas é também um traficante, e todos fingem que não sabem. Nem eu sei, até porque você não leu nada disso aqui.

Há muitos jovens que o cercam, felizes, floridos, que permanecem assim um bom pedaço da torta do dia, mas que deveriam estar ocupados com outras coisas, com questões acadêmicas, porque, afinal de contas, é para isso que estão lá. Mas estão felizes e floridos com o homem da cara de carranca, e isso lhes basta.

Vi também um docente que, suponho, não estava em seu expediente de aulas, pois andava com uma pequena garrafa caramelo de cachaça nas mãos e sorria gratuitamente e tinha um brilho nos olhos como o de crianças isentas de amarguras, que só têm os ébrios, quando adultos, pois só assim fica-se longe de qualquer pesar, quando se dribla a consciência.

Dois sujeitos curiosos também foram captados por minhas células sensoriais, berço da percepção. Um GG, grande e gordo, o outro PP, pequeno e pouco. Senti que entre eles havia algo mais que a essência simples da presença, que havia ainda um odor de afeto carnal. O maior pareceu engolir o menor. Cadeia alimentar. Ambos G.

Por um breve instante penso que o lugar é uma outra coisa qualquer que não o que é de fato, pois tem-se como uma pequena feira, de tantos artesanatos e bugigangas comercializados em pequenos bancos de improviso, dos quais alguns são mais caprichados, cobertos com um pano branco e fino com rendas enfeitando-lhes as arestas.

Não há um menino de cabelos de fogo.

A mulher ainda olha dentro do copo plástico, já oco, o colega me olha do lado oposto, eu olho a todos e ninguém olha o menino, porque ele não existe ali.

É mundo ou inferno, qualquer coisa, exceto céu, mas, no entanto, há figuras divinas de cromossomos xx, pois embora divinas, são sexuadas. Vejo-as ainda enquanto meus olhos varrem, e ao vê-las sinto a comum vontade de tê-las e a aflição de não as ter, a vergonha de não buscar e a dor, não inveja, de terem outros.

- É seu filho? – pergunto.

Não há resposta.

Agora a chuva cessa, o cheiro de terra molhada vem acompanhado de um ar abafado, surge o calor, como que aquecido por algo. Reviso os personagens: a carranca, os discentes, os docentes, os artesãos, os comerciantes, as ninfas. Os olhos de todos voltam-se para um lugar comum, e andam juntos, acompanhando o caminhar de um menino quase transparente de cabelos de fogo que agora surge sem porquê por entre o caminho coberto e caloricamente vantajoso. Olho-o desacreditado e pasmo; não somente seus cabelos são de fogo, mas também seus cílios e sobrancelhas, e, mais tarde, as partes mais quentes também o serão. Parece que levou a chuva quando veio.

A mulher não o olha ainda, seus olhos abstratos de gato fixos no ex-café, no vácuo. Mas ela sorri, pois sabe de alguma forma da presença do infante, sente o calor que ele emana, a radiação contagiosa.

Talvez ele não causasse tanto espanto caso fosse este um ambiente lavoso, mas somos todos cinzas, nem pretos, nem brancos, cinzas. Mestiços: mulatos, cafuzos, pardos, mamelucos, sararás... e ele é um menino quase transparente que tem fogo nos pêlos.

Agora a mulher o olha, ele dirige-se até ela, ela põe-se de cócoras sobre seus saltos cor de abacate, solta o guarda-chuva e o copo, despreza-os. O menino corre até ela, sorrindo de olhos quase fechados e boca muito aberta, dócil, puro, quente. Pega-o, agarra-o, levanta-se, abaixa-se, move-o como se fosse um objeto leve e ardoroso, ama-o. Todos olham. Eu olho.

Pergunto:

- É seu filho?

- Não, é um menino de cabelos de fogo.


(Lalo Oliveira)



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quinta-feira, 9 de abril de 2009

Confissão

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Nas ruas,
Prostitutas,
Prostitutos,
E os dois:
Travecos.

No mundo,
Alguns usam,
Outros condenam,
E os dois:
Amém.


(Lalo Oliveira)

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quinta-feira, 2 de abril de 2009

Madá e a Lua

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Madalena havia feito todas as tarefas do dia, todos seus deveres de dona de casa: cozinhou, lavou, passou, fez toda a faxina. Além de suportar os sete filhos das mais divergentes idades. Foram quatorze, sete caixões brancos de anjo. Em intervalos mínimos entre uma gestação e outra, levou cerca de dez anos e meio grávida. Não era velha, porém. Casou-se muito cedo, como de costume na região e época.

Já estava tudo feito na casa, poderia sentar-se agora na calçada e falar asneiras com as vizinhas, poderia rir. Este era o seu lazer. O marido em seu cargo na pedreira, o mais óbvio: quebrar pedras. Era empregado indigente de uma empresa qualquer de construção civil. Quando ia para casa, levava sempre histórias de assombrações ocorridas para os sete filhos. Disse uma vez que acordara de madrugada e vira uma mulher trajada de branco balançando sua rede na pequena cabana onde dormia. Um dia no futuro a assombração seria pior: chegaria cego de um olho.
Madalena vestiu uma roupa mais adequada para sair à rua. Enquanto o sol se punha e a tarde era fria, sentou à penumbra de sua calçada estranhamente diagonal, como muitas daquela rua enladeirada. Depois vieram os já esperados companheiros de lazer. A conversa era boa e os distraía, os meninos brincavam no meio do mundo.

Tudo igual, tudo religiosamente igual. Exceto pelo trator que vinha descendo a ladeira feito homem embriagado, tropicando pelos metros. Não fossem os gritos dos espantados, todos teriam sido vítimas, mas apenas Madalena o foi. Teve a perna direita engolida pela lataria impiedosa. Sujou a rua de vida vermelha. Foi socorrida, silenciosa todo o tempo, apenas os filhos choravam num coro desesperado, seu marido saberia depois, quando chegasse fatigado do quebrar-pedras. E Madalena sonhava tranquilamente em sua inconsciência. Sonharia depois com o cozinhar, com o lavar, com o passar e acima de tudo com o essencial cuidar dos filhos, que logo seria avesso.

E o trator que não se sabe de onde veio, foi-se também não se sabe para onde. Liberto, como se fosse nada. Ficou por isso mesmo: um amasso por uma perna. A justiça era clara, e Madalena apenas uma dona de casa, mãe de filhos e mulher de quebrador de pedras. Fosse ela da alta classe, nem mesmo uma unha! A perna foi enterrada solitária, à espera do resto do corpo.

Mas Madá, como real mulher forte, ao longo do tempo superou suas dificuldades. Fazer o quê? Adaptou-se, acostumou-se a ter uma só perna. Talvez fingisse para si já ter nascido nesta condição. E de tão humilde, não teve sequer o desejo de fazer justiça, este eufemismo para vingança. Aprendeu a fazer tudo de novo, com todos os poréns. Aprendeu a pular no corredor verde da casa, apoiando-se nas paredes, da sala à cozinha e da cozinha à sala. Às vezes tombava. Os filhos cresceram, tornaram-se donos de si e de outros. Que alívio! Sete preocupações a menos. Contudo, jamais viveria somente com o marido cego de um olho. Quando não moravam na casa de um dos filhos, ocorria o contrário. Poderiam viver a sós, um tinha o olho que o outro ausentava, e este tinha a perna roubada de Madalena. Não era motivo, mas toda vida haveria outro alguém.

O tempo passou motorizado como um ônibus ou um trator desgovernado em ladeira, e de sua própria natureza assassino. E a perna esperava o corpo que já a esquecera àquela altura. Afinal, ela, congenitamente, tinha uma só.

Madá perdeu a perna, agora era desfavorecida de certa forma, mas este é apenas um ponto de vista infeliz. Ganhou uma compensação grande. Poderia sentir a influência do amor platônico dos poetas, da grande fonte da força que mexe as marés, do encanto dos enamorados, do consolo celeste de um homem após um dia de trabalho duro: da lua.

Quando as marés forem baixas e a lua crescente, Madá sentirá a lua em seu resto de perna. Quanta importância! Sentir a lua, ser abraçada... E logo ela, aquela pobre dona de casa, mãe de filhos e mulher de quebrador de pedras. Sentirá a lua em suas dores.

Madá, a maré do sertão.

(Lalo Oliveira)

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